As cooperativas de crédito representam um dos pilares mais dinâmicos e de crescimento mais rápido dentro do Sistema Financeiro Nacional (SFN) brasileiro, operando sob o guarda-chuva do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC). Distintas das instituições bancárias tradicionais por sua natureza associativa e modelo de gestão democrática, onde o cliente é, ao mesmo tempo, dono (associado), elas desempenham um papel crucial na inclusão financeira e no desenvolvimento econômico local.
Este post visa detalhar o panorama atual do cooperativismo de crédito no Brasil, apresentando dados sobre o número de instituições, a complexa disputa pela liderança e o impacto social e econômico que este setor exerce.
1. O Panorama Atual: Quantas Cooperativas de Crédito Temos?
A contagem exata de cooperativas de crédito no Brasil exige a compreensão da sua estrutura, que se divide em três níveis, conforme a legislação e a regulamentação do Banco Central (BC):
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Cooperativas Singulares (1º Grau): São as unidades que atendem diretamente o associado (pessoa física ou jurídica) em seus pontos de atendimento.
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Cooperativas Centrais ou Federações (2º Grau): Reúnem as cooperativas singulares em uma determinada área ou sistema, oferecendo apoio e serviços centrais.
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Confederações ou Bancos Cooperativos (3º Grau): Estão no topo da hierarquia e representam o sistema em nível nacional, funcionando como um banco de apoio para as centrais.
Os dados mais recentes e amplamente divulgados, fornecidos pelo Banco Central (BC) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), referem-se principalmente às cooperativas singulares e consolidam os sistemas.
O Número de Cooperativas Singulares
Em balanços recentes (considerando dados consolidados de 2023 e projeções para 2024), o Brasil conta com um número que oscila entre 680 e 770 cooperativas de crédito singulares.
| Ano (Base de Dados) | Número Aproximado de Cooperativas Singulares | Número de Associados (em milhões) |
| 2024 | ≈ 689 | +20 milhões |
| 2023 | ≈ 768 | 17,3 milhões |
| 2022 | ≈ 728 | 15,5 milhões |
Fonte: Sistema OCB e Banco Central, dados aproximados.
A variação no número de cooperativas se deve a processos de fusão e incorporação, que visam a consolidação e o fortalecimento dos sistemas maiores para ganharem eficiência e competitividade. Embora o número de unidades singulares possa diminuir ligeiramente devido às fusões, a força do sistema como um todo aumenta, traduzida em mais associados, mais ativos e maior capilaridade.
A Inclusão Financeira
Um dos impactos sociais mais notáveis é a capilaridade. As cooperativas de crédito possuem, juntas, a maior rede de atendimento físico do Brasil, ultrapassando 10.200 pontos de atendimento (agências e postos).
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Municípios Atendidos: Em quase metade dos municípios brasileiros, as cooperativas de crédito representam a única instituição financeira com atendimento presencial, desempenhando um papel fundamental na inclusão de comunidades desassistidas pelos grandes bancos.
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Aumento de Associados: O número de associados cresceu de forma exponencial, atingindo a marca de mais de 20 milhões de brasileiros em 2024, entre pessoas físicas e jurídicas.
2. A Disputa pela Liderança: Qual é a Maior?
A pergunta sobre a “maior” cooperativa de crédito do Brasil é complexa, pois a resposta depende da métrica utilizada. As duas gigantes do SNCC – Sicoob e Sicredi – disputam a liderança em diferentes categorias.
O Critério de Ativos Totais (Tamanho Financeiro)
Em termos de Ativos Totais, que é o padrão internacional para medir o porte e a solidez de instituições financeiras, o ranking costuma posicionar o Sicoob na frente:
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Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil):
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Historicamente, tem mantido a liderança em Ativos Totais Consolidados, atingindo valores que ultrapassam R$ 359 bilhões (em balanços recentes).
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Este volume o posiciona entre os 10 maiores conglomerados financeiros do Brasil, ao lado de instituições centenárias como Itaú, Banco do Brasil e Bradesco.
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Sicredi (Sistema de Crédito Cooperativo):
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O Sicredi também possui um volume impressionante de ativos, próximo de R$ 324,6 bilhões, e é o sistema mais antigo do Brasil.
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Sua força é notável na Operações de Crédito e na Distribuição de Sobras (lucros) aos associados.
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O Critério de Número de Associados e Pontos de Atendimento
Ao analisar o número de pessoas servidas e a presença física, a disputa se equilibra ou inverte.
| Sistema | Ativos Totais (Aprox.) | Número de Associados (Aprox.) | Pontos de Atendimento (Aprox.) |
| Sicoob | R$ 359,7 bi | 8,5 mi | 4.399 |
| Sicredi | R$ 324,6 bi | 8,9 mi | 2.961 |
Fonte: Dados consolidados dos sistemas, 2024.
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Liderança em Associados: Dependendo do balanço mais recente, o Sicredi pode aparecer com um ligeiro maior número de associados (cerca de 8,9 milhões), enquanto o Sicoob (cerca de 8,5 milhões) pode ter uma base ligeiramente menor, mas com uma rede de atendimento mais vasta em termos de agências.
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Liderança em Pontos de Atendimento: O Sicoob geralmente lidera em número de pontos de atendimento (agências e postos), o que lhe confere a maior rede física do país.
Outros Grandes Sistemas
Além dos dois líderes, o SNCC conta com outros sistemas robustos que merecem destaque:
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Cresol (Sistema de Cooperativas de Crédito Rural com Interação Solidária): Conhecida por sua origem e forte atuação no crédito rural e solidário, possui quase 1 milhão de associados e mais de 950 pontos de atendimento.
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Ailos (Sistema Ailos): Forte no sul do país, especialmente em Santa Catarina, é um sistema consolidado e com forte crescimento em ativos e cooperados.
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Unicred (Sistema Nacional Unicred): Focada em profissionais da saúde, oferece serviços especializados a um público de alta renda, com ativos em torno de R$ 27 bilhões.
3. O Impacto Econômico e Social do Cooperativismo de Crédito
A ascensão das cooperativas de crédito é mais do que uma estatística financeira; é um fenômeno social e econômico. Seu modelo de negócio opera com base em princípios que geram valor diretamente para o associado e a comunidade:
A. Distribuição de Riqueza e Sobras
Ao contrário dos bancos tradicionais, que visam o lucro para acionistas, as cooperativas têm como foco a otimização dos serviços e a distribuição das sobras (o excedente financeiro apurado no final do ano) entre os associados.
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Rendimento Duplo: O associado se beneficia de taxas de juros mais justas (empréstimos e financiamentos) e melhores rendimentos em aplicações, e ainda recebe uma parcela das sobras do resultado anual, proporcional à sua movimentação financeira.
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Reinvestimento Local: O capital captado em uma região (depósitos e poupança) é predominantemente reaplicado na mesma comunidade, financiando negócios e projetos locais, o que impulsiona o desenvolvimento regional e a geração de empregos.
B. Solidez e Confiança
A solidez do SNCC é garantida pelo Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), que funciona de maneira similar ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dos bancos, assegurando depósitos e aplicações dos associados até um limite estabelecido pela regulamentação.
C. Geração de Empregos
O crescimento do setor de cooperativismo de crédito tem sido um motor de empregos no SFN. A expansão da rede de atendimento e o aumento da base de associados levaram a um crescimento no número de colaboradores. Em 2024, o setor já emprega mais de 120 mil pessoas, com um aumento percentual significativo ano após ano, superando a taxa de criação de empregos do sistema bancário tradicional.
Conclusão: Um Futuro em Expansão
O cooperativismo de crédito no Brasil está em um caminho de consolidação e expansão acelerada. Com um número de instituições singulares em processo de otimização (fusões) e sistemas centrais cada vez mais robustos, o setor não apenas compete em pé de igualdade com os grandes bancos em termos de ativos, mas também se destaca em seu papel social.
A força do Sicoob e Sicredi – líderes em ativos e número de associados, respectivamente – é o reflexo de um modelo de negócio que valoriza a participação, a distribuição de resultados e o desenvolvimento das comunidades onde estão inseridos. O futuro do crédito cooperativo é promissor, com o potencial de se tornar a principal forma de relacionamento financeiro para milhões de brasileiros, mantendo sua essência: o associado no centro do negócio.