Vale a pena fixar taxas agora? A corrida pelos títulos de renda fixa e o dilema do investidor

16/01/2026

Por: Adriano Gadelha

O cenário macroeconômico brasileiro em 2026 tem colocado o investidor diante de uma encruzilhada que não víamos há algum tempo. De um lado, a tentação de “travar” rendimentos de dois dígitos em títulos prefixados e IPCA+; de outro, o receio de que a inflação ou a trajetória dos juros (Selic) suba ainda mais, corroendo o custo de oportunidade de quem se antecipou.

Se você abriu o seu app de investimentos hoje, provavelmente se deparou com taxas que parecem saídas de 2016. Mas a pergunta que não quer calar é: estamos no topo da montanha ou apenas em um patamar de descanso antes de uma nova subida?

Neste artigo, vamos dissecar o momento atual, os riscos de fixar taxas agora e como montar uma estratégia de “escada” para não ficar refém de um único cenário.


O Retorno dos “Rentistas”: O que está impulsionando as taxas?

Para entender se vale a pena fixar taxas, precisamos entender por que elas estão tão altas. O mercado financeiro não oferece 13% ou 14% ao ano por generosidade. Essas taxas são o reflexo do prêmio de risco.

Atualmente, três pilares sustentam essa “corrida” pela renda fixa:

  1. Incerteza Fiscal: O mercado monitora de perto os gastos públicos. Quando há dúvida se o governo conseguirá manter as contas em dia, os investidores exigem juros maiores para emprestar dinheiro ao Estado (comprando títulos públicos).

  2. Expectativas de Inflação: O IPCA tem mostrado resiliência. Quando as projeções de inflação para os próximos anos sobem, o Banco Central é forçado a manter a Selic em patamares restritivos, o que eleva o rendimento de toda a cadeia de renda fixa.

  3. Cenário Externo: Com os juros nos Estados Unidos e na Europa ainda em patamares de ajuste, o Brasil precisa oferecer um diferencial atrativo para manter o capital estrangeiro aqui, evitando uma fuga de dólares que pressionaria ainda mais a inflação.

Prefixados vs. Pós-fixados: A Batalha do Custo de Oportunidade

A grande dúvida do momento é a escolha entre o conforto do pós-fixado (CDI) e a aposta do prefixado.

O Argumento para o Pós-fixado

O título pós-fixado é o “porto seguro”. Se a Selic subir para combater a inflação, seu rendimento acompanha. É o investimento ideal para a reserva de emergência e para quem acredita que o cenário ainda pode piorar muito antes de melhorar. O risco aqui é o custo de oportunidade reverso: se a economia estabilizar e os juros caírem bruscamente, quem ficou apenas no CDI verá sua rentabilidade minguar rapidamente.

O Argumento para o Prefixado (Fixar Taxas)

Quando você compra um título prefixado de, digamos, 13,5% ao ano, você está fazendo um contrato com o futuro. Se daqui a dois anos a Selic cair para 9%, você continuará ganhando 13,5%. É aqui que se faz dinheiro de verdade na renda fixa, através da marcação a mercado. Se as taxas de mercado caem, o seu título — que paga uma taxa antiga e mais alta — torna-se muito valioso, permitindo que você o venda com lucro antes do vencimento.

Os Perigos de “Travar” Tudo Agora

Fixar taxas não é isento de riscos. O maior deles é a inflação descontrolada. Se você trava uma taxa de 13% ao ano e a inflação sobe para 10%, seu ganho real (acima da inflação) é de apenas 3%, o que pode ser insuficiente para o risco que você tomou.

Além disso, temos o risco da liquidez. Títulos prefixados e IPCA+ com vencimentos longos sofrem muita oscilação de preço no curto prazo. Se você precisar do dinheiro antes da hora e as taxas de juros tiverem subido desde que você comprou, você pode sofrer um prejuízo nominal ao tentar resgatar. Fixar taxas é uma estratégia para o dinheiro que tem data certa para ser usado.

Onde Estão as Oportunidades em 2026?

Se você decidiu que quer aproveitar o momento para fixar taxas, onde deve olhar?

  • Tesouro IPCA+ (Notas do Tesouro Nacional – Série B): Atualmente, as taxas de juros reais (IPCA + 6% ou mais) são historicamente altas. Este é considerado o “investimento do século” por muitos especialistas, pois garante que você sempre ganhará acima da inflação, independentemente do que aconteça com a economia.

  • CDBs de Bancos Médios: Para quem busca um “pimenta” extra, bancos médios estão oferecendo prefixados atraentes. Aqui, o limite do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) é o seu melhor amigo. Não ultrapasse os R$ 250 mil por instituição.

  • Debêntures Incentivadas: Para quem está nas faixas mais altas do Imposto de Renda, as debêntures de infraestrutura (isentas de IR) podem oferecer retornos líquidos equivalentes a prefixados muito altos.

Estratégia de Alocação: A Técnica da “Escada”

Em vez de tentar adivinhar se hoje é o melhor dia para investir, os grandes gestores utilizam a técnica da escada (laddering). Funciona assim:

  1. Não coloque tudo em um único vencimento. Divida seu capital.

  2. Aloque uma parte em um prefixado para 2027.

  3. Outra parte em um título IPCA+ para 2030.

  4. E mantenha uma base sólida em pós-fixados para liquidez imediata.

Dessa forma, você aproveita as taxas altas de hoje, mas mantém “pólvora seca” para investir novamente caso as taxas subam ainda mais no mês que vem.

O Mecanismo Oculto: Entendendo a Marcação a Mercado

Muitos investidores acreditam que a renda fixa é “parada”, mas a verdade é que o preço dos títulos prefixados e indexados à inflação (IPCA+) oscila todos os dias. Esse fenômeno é chamado de Marcação a Mercado (MaM).

A regra de ouro aqui é contra-intuitiva: quando as taxas de juros do mercado caem, o preço do seu título sobe. Quando as taxas sobem, o valor do seu título cai.

Exemplo Numérico: A Lógica do “Papel Valioso”

Imagine que você comprou um título prefixado hoje por R$ 800,00, com uma taxa de 12% ao ano, para vencer daqui a 2 anos, quando ele valerá exatamente R$ 1.000,00 (o chamado Valor Nominal).

Agora, imagine que seis meses depois, a economia melhora e o Banco Central corta os juros. Os novos títulos emitidos pelo governo agora oferecem apenas 8% ao ano.

O que acontece com o seu título de 12%?

  • O mercado olha para o seu papel e vê que ele paga muito mais do que os títulos novos.

  • Como o seu título é mais lucrativo, as pessoas aceitam pagar mais caro para tê-lo.

  • O preço do seu título no app da corretora deixa de ser R$ 800,00 e sobe, por exemplo, para R$ 910,00.

Nesse momento, você tem duas escolhas:

  1. Segurar até o final: Receber os 12% contratados originalmente.

  2. Vender antecipadamente: Realizar um lucro de quase 14% em apenas seis meses (ganho de capital).

É essa a “corrida” que muitos investidores profissionais fazem: eles tentam travar taxas no topo para vender os títulos com ágio assim que os juros começarem a cair.

O Poder do Tempo: A Tabela Regressiva do Imposto de Renda

Ao fixar taxas agora, você não está apenas lutando contra a inflação, mas também contra o Leão. No Brasil, a renda fixa (exceto as isentas como LCI, LCA e Debêntures Incentivadas) segue a Tabela Regressiva de IR.

Muitos investidores cometem o erro de resgatar o título cedo demais, entregando uma fatia enorme do lucro para o governo. Veja como o tempo trabalha a seu favor:

Prazo de Permanência Alíquota de IR sobre o Lucro
Até 180 dias 22,5%
De 181 a 360 dias 20,0%
De 361 a 720 dias 17,5%
Acima de 720 dias 15,0%

Por que os 720 dias são o “Número Mágico”?

Ao travar uma taxa hoje e segurar o título por mais de dois anos (720 dias), você atinge a alíquota mínima de 15%.

A diferença entre os 22,5% iniciais e os 15% finais pode parecer pequena, mas em investimentos de longo prazo e grandes volumes, essa economia de 7,5% no imposto pode representar a diferença entre bater ou não o seu objetivo financeiro. Fixar taxas em títulos com vencimentos de 3, 5 ou 10 anos é a forma mais eficiente de garantir que a maior parte da rentabilidade fique no seu bolso, e não no Tesouro Nacional.

O Impacto do Cenário Fiscal: Por que as taxas estão “esticadas”?

Para fechar o entendimento, precisamos falar sobre o Risco Fiscal. Quando ouvimos no jornal que “o governo está gastando mais do que arrecada”, isso impacta diretamente o seu CDB ou Tesouro Direto.

Se o mercado percebe que o país pode ter dificuldade em pagar suas dívidas no futuro, ele exige um prêmio de risco maior. É por isso que, mesmo com a inflação sob controle em alguns meses, as taxas de juros de longo prazo continuam altas.

Investir em taxas fixas agora é, de certa forma, uma aposta na responsabilidade fiscal. Se o governo der sinais de que vai equilibrar as contas, esse prêmio de risco cai, as taxas de mercado despencam e quem fixou a taxa agora verá seu patrimônio dar um salto via marcação a mercado

Conclusão: Vale a pena?

A resposta curta é: Sim, mas com critério.

Estamos vivendo um momento de taxas reais de juros que poucos países no mundo oferecem. Ignorar completamente a renda fixa prefixada agora pode significar perder a chance de garantir a manutenção do seu padrão de vida por anos. No entanto, o otimismo deve ser temperado com cautela fiscal.

O investidor inteligente não tenta prever o futuro; ele se prepara para vários cenários. Se os juros caírem, seus prefixados brilham. Se subirem, seus pós-fixados protegem o patrimônio. A “corrida” não deve ser para ver quem chega primeiro, mas para ver quem monta a carteira mais resiliente.

Mais lidas

Deixe um comentário