Nem os gigantes perdoaram: por que os grandes bancos estão lucrando menos?

16/05/2026

Por: Adriano Gadelha

Para o brasileiro comum, poucas coisas parecem tão certas no universo financeiro quanto a resiliência e a lucratividade dos grandes bancos. Há décadas vigora no imaginário popular — e frequentemente na realidade dos fatos — a máxima de que “no Brasil, as únicas certezas são a morte, os impostos e o lucro recorde dos bancões”. Afinal, mesmo em períodos de recessão técnica, turbulências políticas ou inflação galopante, os relatórios trimestrais das maiores instituições financeiras do país costumavam ostentar cifras bilionárias e setas apontadas para cima.

No entanto, o mercado financeiro acaba de receber um choque de realidade. A mais recente temporada de balanços acendeu um sinal amarelo na Faria Lima e deixou correntistas e investidores intrigados: pela primeira vez em mais de dois anos, a soma dos lucros trimestrais dos grandes bancos privados do país (Itaú, Bradesco, Santander e BTG Pactual) registrou uma retração conjunta, recuando 5,8% em relação ao trimestre anterior.

Se o recuo nos bancos privados chamou a atenção, o cenário nos bancos públicos trouxe números ainda mais dramáticos. O Banco do Brasil reportou uma queda superior a 50% em seu lucro líquido ajustado, sendo forçado a revisar para baixo suas projeções de rentabilidade (o chamado guidance) para o restante do ano. Diante desse panorama, a pergunta que ecoa de norte a sul do país é imediata: o que está acontecendo com os gigantes do setor bancário? Será o prenúncio de uma crise sistêmica ou o reflexo de uma mudança estrutural e irreversível no mercado?

Abaixo, dissecamos os bastidores econômicos, regulatórios e tecnológicos que explicam por que nem os gigantes foram poupados.


1. O nó da inadimplência e o peso invisível da PDD

Para compreender a queda no lucro de um banco, o primeiro lugar para onde se deve olhar não são as agências ou os aplicativos, mas sim o balanço de risco. E, no momento atual, o principal vilão atende por uma sigla técnica: PDD (Provisão para Devedores Duvidosos).

Na mecânica bancária, conceder crédito é a atividade mais lucrativa, mas também a mais arriscada. Quando a economia passa por períodos prolongados de juros altos e o orçamento das famílias e empresas fica sufocado, o risco de calote dispara. O Banco Central exige que, para cada real emprestado, o banco separe uma espécie de “colchão de segurança” proporcional ao risco daquela dívida. Se o cliente atrasa o pagamento ou se o cenário macroeconômico piora, o banco é obrigado a aumentar essa reserva.

O grande detalhe contábil é que o dinheiro destinado à PDD sai diretamente do resultado operacional da instituição antes de se transformar em lucro líquido. Ou seja: quanto mais o fantasma da inadimplência assombra o mercado, mais dinheiro os bancos precisam “congelar” em suas provisões, esvaziando a última linha do balanço.

Bancos que historicamente possuem carteiras de crédito mais expostas ao varejo popular ou a pequenas e médias empresas sentiram o golpe de forma mais severa. A inadimplência acima de 90 dias subiu significativamente em várias instituições, forçando aportes bilionários de proteção que corroeram as margens que antes inflavam os lucros.


2. A ressaca dos juros altos e o encolhimento da margem com clientes

À primeira vista, pode parecer contraintuitivo: se as taxas de juros básicas da economia permanecem em patamares elevados, os bancos não deveriam lucrar ainda mais cobrando juros mais altos nos empréstimos? A resposta é: depende da velocidade e da origem desse dinheiro.

Existe um indicador crucial no setor chamado Margem Financeira com Clientes. Ele representa, de forma simplificada, a diferença entre o custo que o banco tem para captar dinheiro (o que ele paga para quem deixa o dinheiro rendendo na poupança ou no CDB) e o valor que ele cobra para emprestar esse mesmo dinheiro para terceiros (o famoso spread bancário).

O que os balanços recentes revelaram foi uma retração generalizada nessa linha de receita. Com o cenário econômico incerto, os bancos adotaram uma postura de extrema cautela, conhecida no jargão financeiro como flight to quality (vôo para a qualidade). Em vez de emprestarem dinheiro a juros altíssimos para perfis de maior risco — o que aumentaria a margem, mas também o risco de calote —, as diretorias dos bancões optaram por fechar as torneiras.

Eles passaram a priorizar linhas de crédito mais seguras e de menor rentabilidade, como o crédito consignado e financiamentos habitacionais de longo prazo com garantias reais. O resultado prático dessa estratégia defensiva é matemático: menos empréstimos de alto rendimento significam uma margem financeira menor e, consequentemente, lucros mais modestos. Os bancos preferiram abrir mão de lucros recordes imediatos para evitar um colapso de calotes no futuro.


3. A revolução silenciosa do Banco Central e o fim da “Era das Tarifas”

Houve um tempo em que os grandes bancos não dependiam apenas de empréstimos para enriquecer; eles possuíam uma fonte de receita blindada e altamente previsível: as tarifas de prestação de serviços. Quem não se lembra de pagar taxas salgadas para realizar uma transferência via TED ou DOC, ou de arcar com mensalidades obrigatórias de pacotes de serviços para manter uma conta corrente ativa?

Essa era dourada das receitas fáceis ruiu. A agenda de modernização do Banco Central do Brasil — capitaneada pela consolidação absoluta do Pix e pelo avanço do Open Finance — promoveu uma verdadeira transferência de renda do sistema financeiro para o bolso do consumidor.

  • O Efeito Pix: Ao digitalizar e tornar gratuitas as transações financeiras para pessoas físicas, o Pix extinguiu bilhões de reais que os bancos recolhiam anualmente em tarifas de transferência.

  • O Impacto do Open Finance: A portabilidade de dados financeiros permitiu que o cliente leve seu histórico de crédito para qualquer instituição com poucos cliques. Isso destruiu o monopólio da informação que os bancões detinham sobre seus correntistas, acirrando a briga pelas melhores taxas e reduzindo o poder de precificação das grandes instituições.

Para compensar a perda dessas receitas institucionais, os bancos tradicionais precisam ser muito mais eficientes na venda de produtos de valor agregado (como seguros, consórcios e fundos de investimento). Mas, em um mercado saturado, essa transição tem se provado dolorosa e lenta.


4. Concorrência assimétrica: a consolidação das Fintechs e Bancos Digitais

Se antes os cinco maiores bancos do país detinham o controle quase absoluto do ecossistema financeiro nacional, hoje o cenário competitivo é pulverizado. As fintechs e os bancos digitais deixaram de ser meras “novidades tecnológicas” para se tornarem predadores de fatias consolidadas de mercado.

Embora o próprio setor de bancos digitais também enfrente seus próprios desafios de rentabilidade e flutuações de ações na Bolsa de Valores devido à inadimplência, a pressão competitiva que eles exercem sobre os incumbentes tradicionais é implacável. Para evitar uma debandada em massa de clientes mais jovens e digitais, os grandes bancos foram forçados a reagir em duas frentes, ambas prejudiciais ao lucro de curto prazo:

  1. Redução de margens e isenções: Para competir com cartões de crédito sem anuidade e contas digitais gratuitas, os bancões precisaram abrir mão de receitas de tarifas e reduzir as taxas de administração de suas plataformas de investimentos.

  2. Explosão de investimentos em tecnologia: Manter uma infraestrutura legada de milhares de agências físicas ao mesmo tempo em que se investe bilhões de reais para atualizar aplicativos, sistemas de segurança cibernética e inteligência artificial custa caro. O custo de servir o cliente aumentou, pesando sobre a eficiência operacional.


5. Eficiência assimétrica: quem está vencendo a transição?

Os dados mais recentes do mercado trazem uma nuance fundamental: a queda nos lucros não afeta a todos da mesma maneira. Analistas de mercado apontam para uma crescente concentração dos resultados em instituições com maior eficiência operacional e modelos de negócios altamente diversificados.

O Itaú Unibanco, por exemplo, tem conseguido mitigar os impactos e se manter como a principal referência de consistência do setor, ancorado em uma forte transição digital e na blindagem de sua carteira de alta renda. Por outro lado, instituições que historicamente dependem mais da capilaridade física ou que demoraram mais para reestruturar suas concessões de crédito sofrem quedas mais profundas em sua rentabilidade (o chamado ROE – Retorno sobre o Patrimônio).

Essa disparidade mostra que o setor bancário brasileiro está passando por uma seleção natural acelerada. Não basta mais ser “grande demais para quebrar”; é preciso ser ágil o suficiente para se adaptar às novas regras do jogo.


Conclusão: Os gigantes estão em crise?

Diante de manchetes que anunciam quedas de 50% em lucros ou retrações generalizadas no setor, é fácil para o observador desatento concluir que o sistema bancário está à beira do colapso. No entanto, é fundamental colocar os números em perspectiva histórica.

Os grandes bancos brasileiros não estão quebrando; eles continuam lucrando bilhões de reais. A diferença crucial é que eles estão lucrando menos do que em seus auges históricos e operando sob margens visivelmente mais apertadas. O que estamos testemunhando não é a ruína dos gigantes, mas sim o seu redimensionamento.

A era do crescimento fácil, impulsionada por tarifas abusivas, spreads astronômicos sem concorrência e um mercado blindado à inovação tecnológica, chegou ao fim. Para o investidor, o momento exige cautela e uma análise cirúrgica de quais instituições possuem a melhor governança e capacidade de adaptação. Para o consumidor, a notícia traz um alento: a queda nos lucros dos gigantes é o sintoma de um mercado que, finalmente, começou a cobrar um preço pela eficiência e pela concorrência.


💬 E você, o que pensa sobre esse cenário?

A era de ouro dos grandes bancos tradicionais ficou no passado ou eles vão encontrar uma nova forma de bater recordes? Você já migrou totalmente para o digital ou ainda mantém seu dinheiro nos bancões? Deixe sua opinião nos comentários abaixo e participe do debate!

Mais lidas

Deixe um comentário